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1 de dezembro de 2015

Constrangimento, Preconceito, e muito mais..


Outro dia fui fazer uns exames, coisa de rotina, e ai aparece aquela atendente que vem te perguntar: 
Tem diabetes? Já fez alguma cirurgia? Bebe? Fuma? patati? patata? . Eu respondo sempre no módulo "automático" NÃO SIM NÃO NÃO .... mas já saquei que algumas respostas vc tem que dizer SIM e outras NÃO, e elas são meio intercaladas, de forma a forçar vc a prestar atenção...
Eu respondi as perguntas e ela me pediu para aguardar numa cadeira ao lado. Foi então que chegou um rapaz, e outra assistente veio bombardear ele com as mesmas perguntas: 
Patati? Patatá? Faz uso de algum medicamento de uso contínuo?
E o rapaz respondeu: - Retrovirais 
Ela não perguntou mais nada, agradeceu e se retirou. Não me lembro se para mim esta foi a última pergunta também. Um médico (jaleco branco é sempre médico?) que estava sentado numa mesa levantou os olhos e olhou para o rapaz, que pareceu constrangido.

Foi então que notei que estava prestando atenção nas respostas dele, não prestar atenção seria difícil, uma sala aberta, com várias pessoas, zero privacidade... inclusive,  minutos depois, uma moça foi perguntada: "para que está fazendo este exame" e eu ouvi ela, tb constrangida, responder "hemorroidas"...
Eu já percebi que o pessoal da área de saúde, por achar tudo "normal", não se preocupa muito sobre esta questão, em geral há muita falta de privacidade em hospitais e laboratórios. Eu até confio no sigilo destes profissionais, mas e quem está ao seu lado e ouve? 

Acho que toda doença embute uma dose de preconceito e constrangimento, mas não há como negar que, no caso da AIDS, esta questão é muito mais séria. Realmente é uma doença grave, e todo mundo faz uma relação direta com sexo, promiscuidade, homossexualidade. O fato de ser tratável, porém incurável, assusta muito. 
Eu me angustio em saber que muita gente ainda se contamina, que ainda transa sem proteção. Acho incrível que a AIDS, e outras DSTs não sejam uma preocupação para algumas pessoas... Como eu já contei, eu sou da época que a AIDS surgiu, que muita gente morreu...
Nos EUA até existe uma recomendação expressa para que os homossexuais com vida sexual ativa - não monogâmica - façam uso de PREP ( Profilaxia Pré Exposição ) e até a FIOCRUZ está envolvida num estudo com voluntários neste sentido. Muitos defendem que a PREP vai evitar o alastramento maior do Vírus, pois as pessoas não se infectarão tão facilmente e o Virus vai "acabar" pois não vai ter novos hospedeiros... uma visão quase romântica do assunto... ou seria uma visão COMERCIAL do assunto?

Outro dia eu li um interessante artigo, acho que na THE ADVOCATE, que falava que é muito melhor você ter relações com alguém que sabe que é soropositivo, e se cuida, do que com alguém que desconhece seu STATUS, como eles dizem. Mas muita gente ainda se afasta de alguém que é soropositivo, até mesmo para ser amigo. 

Acho que a unica solução é conversar, falar sobre estes assuntos, tentar diminuir o preconceito, brigar para as pesquisas para o tratamento não pararem, tentar esclarecer os jovens, tentar combater nossos preconceitos... fico  bem perdido com tudo isto...




29 de novembro de 2013

domingo é 01 de dezembro

 
Você sabe não é? dia 1 de dezembro é o dia mundial de combate á AIDS!
Por sorte o "combate" não é feito só num dia. As pesquisas, as campanhas, os cuidados, são divulgados permanentemente, o dia serve principalmente para lembrarmos as memórias dos que se foram. E muitos se foram.
Eu sou de uma época em que a AIDS era ainda um mistério de certa forma e o "câncer gay" acabou por tirar a vida de muita gente. O preconceito era fortíssimo, o estigma social.  Os amigos, os professores, os ídolos, adoeceram e morreram, sem muito que se pudesse fazer: a não ser visitar (se deixassem), cuidar do cachorro e das plantas enquanto estavam hospitalizados e  rezar.
Eu sou da geração que tinha a "opção" de transar sem camisinha, e que teve que aprender na marra a encapar o júnior!  Se bem que eu, com conhecimento de outras DSTs, e um pouquinho de fobia de doenças,  sempre me preocupei em usar.
Eu acho que eu tinha uns 20 anos quando ouvi o nome AIDS pela primeira vez. O irmão de uma super amiga, que morava nos EUA, tinha voltado muito doente e estava internado no Emilio Ribas. (Emilio Ribas = morte,  naquela época).
E as mortes vinham em PG (progressão geométrica) lauro corona, cazuza, rock hudson, nureyev, flávio império, henfil, cada vez mais mulheres contaminadas, filhos destas mulheres - ia surgir toda uma geração de órfãos da AIDS.
Eu acabei indo trabalhar como voluntário no GIV, eu queria entender melhor, não dava para fingir que o "negócio" não era comigo. Os remédios começaram a surgir e quando começaram a ser distribuídos pela rede publica a epidemia desacelerou rapidamente, as pessoas começaram a engordar, a ter a chance de se cuidar....
Hoje em dia, com os cuidados adequados, com o acompanhamento, com as medicações, eu sei que a expectativa dos portadores não diferencia muito de quem não é portador, vai depender um pouco de como a pessoa estava quando começou o tratamento e sua disciplina, cuidados com alimentação, um certo condicionamento físico... coisas de vida saudável a que todo mundo deve prestar atenção.
 
Mas as coisas não estão tão tranquilas assim!
 
Acho que mesmo hoje, como toda a informação que temos, ainda temos um olhar enviesado em relação ao HIV e aos portadores do vírus.
Acho que a primeira coisa que nos passa na cabeça é "poxa cara, porque você não se protegeu?" "você não sabia que tinha que usar camisinha?".
 Além de um certo "juízo moral" por achar que você é mais esclarecido que o outro. O preconceito ainda é grande, porque muita gente ainda sabe pouco sobre a AIDS.
 
Eu tenho muitos amigos e conhecidos que são portadores do vírus do HIV, e eles se dividem em dois grupos, um parte deles fala do assunto com naturalidade e, via de regra, acaba se abrindo com seus pretendentes e ficantes - em especial os que ele querem que vire namoro. Eles se arriscam em serem rejeitados ou sofrerem preconceitos em nome de uma verdade que é importante para eles.
Outro  grupo confia no que os médicos e os estudo dizem: uma pessoa com carga viral indetectável e CD4 alto tem muito pouca possibilidade de contaminar alguém, eles usam camisinha e nada contam para as pessoas com que saem, eles não estão prejudicando ninguém pois eles se previnem de transmitir e de se recontaminar. Existem estudos que mostram que em casais sorodiscordantes, mesmo sem uso de preservativo, a transmissão do vírus é quase nula.
Nos anos 90 existiam grupos militantes nos EUA que apregoavam que o HIV teria sido um vírus artificial implantado pelas elites judaico-cristãs para eliminar os gays, os africanos e os pobres... e lutavam contra isto, havia os Giffters e os Giffteds (pessoas que se propunham a contaminar as pessoas sem que elas soubessem e pessoas que buscavam ser contaminadas para mostrar sua posição!) Eu li alguns manifestos destas pessoas mas não conheci ninguém pessoalmente, mas mesmo hoje em dia eu sei que tem gente que acha que o HIV é tratável e que a prevenção é secundária. E eu não me sinto no direito de julgar esta atitude. Mas sei que isto é uma visão deturpada da eficiência dos medicamentos...
 
Mas o preconceito está ai! As pessoas são discriminadas e tem medo de serem discriminadas! Eu faço o que posso fazer! Falo um pouco do assunto, distribuo links, participo de grupos.
A oportunidade de ser lido por centenas e ás vezes milhares de pessoas todo  mês, me dá uma certa responsabilidade - e sei que outros blogueiros compartilham disto. Por isto é importante falar do 1 de dezembro!
 
Se você nunca se testou para o HIV, faça o teste, é gratuito, é sigiloso. Se você não tiver, ótimo, sabe que os cuidados que tem tomado tem sido eficientes. Se você testar positivo, vai ser ruim, vai ser difícil, mas você vai poder se cuidar o quanto antes e as consequências vão ser menores. veja AQUI onde pode procurar esses testes
 
E você? Como a AIDS te afetou? Como ela te afeta?