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8 de outubro de 2015

Desafio - coming out day

Dia 11 de outubro, nos EUA, é celebrado o "dia de sair do armário". A ideia é que as pessoas possam discutir a questão da liberdade de expressão, da aceitação, da tolerância com relação a diversidade sexual
Mas porque é tão importante sair do armário, ou ao menos falar sobre isto?
Eu não tenho uma resposta única para isto, mas o que eu sinto é que sempre que temos alguma coisa não resolvida, não bem elaborada, dentro da gente, esta coisa começa a ocupar espaço, começa a tirar energias de outras atividades, começa a ficar bem maior que deveria ser. Não poder falar de nossas afetividades, de nossos sentimentos, acaba por nos trazer angústia, depressão, ansiedade... isto acontece, quando, por exemplo, estamos num trabalho cujo ambiente nos sufoca, ou numa atividade para a qual não nos sentimos preparados.
Eu sei que muita gente que passa por aqui ainda está em vários estados de aceitação, já conversamos sobre isto e muitos ja falaram sobre isto! Me parece que todos concordam que cada um tem seu tempo, sabe o momento certo de fazer isto. Sair do armário é um processo contínuo.  

Eu acredito que cada um que sai do armário, cada pequeno gesto, ajuda outros a saírem do armário, a cada pessoa, que tenha alguma proeminência, que sai do armário, abre-se uma nova possibilidade para outros. Quando a novela sai do armário, quando o telejornal sai do armário, quando um escritor, um ator, um jornalista, se assume, um novo exemplo positivo se mostra, uma brecha se abre nos armários. E não precisa ser "celebridade" para ser proeminente em nossas vidas, basta ser alguém que você conhece, basta ser alguém que tem contato com você, ou alguém que você mesmo admira.
Cada vez que saímos do armário ajudamos outros, ajudamos a ideia de mundo cheio de diversidade, mostramos que não somos só os estereótipos, mostramos que "somos muitos e estamos em todos os lugares". 
A campanha #MINHAFAMLIAEXISTE que foi uma reação ao famigerado estatuto da família, fez  justamente isto, mostrou que as famílias diversas são muitas, com muitos formatos e estão em todos os lugares. Pensando nisto eu queria propor um "desafio" a você! 

Eu te desafio a sair do armário neste fim de semana! Tô falando sério!
Eu não estou falando da grande saída, mas do pequeno gesto, do gesto que mostra que estamos aqui. Aquele gesto que quase passa desapercebido para a pessoa, tal naturalidade fazemos... recentemente eu fiz uma destas:
Lá no curso de História eu cumprimentei uma colega e ela falou:
- "que perfume gostoso você está usando"
E eu:
- " foi meu namorado que me deu" assim... com naturalidade, como qualquer cara hétero comentaria sobre um perfume que a namorada deu... o suficiente para mostrar que temos uma afetividade, que existimos...(*)

Para alguns talvez seja um desafio maior, então eu sugiro que faça isto com alguém que nem te conhece, dê um jeito de pontuar, de marcar nosso território... Se você já for um cara bem resolvido e assumido talvez você ache isto uma bobagem, um gesto desnecessário, mas lembre que vai fazer isto não só por você, mas principalmente pela ideia, para melhorar a sociedade, e a sociedade está precisando ser melhorada não é? Todo mundo pode mudar o mundo mudando um pedacinho..

Topa o desafio? Então vai lá e depois nos conta! Vou aguardar!
 

(*) lembrei que algumas semanas atrás eu fiz algo parecido... eu estava com minha filha numa loja, experimentando uma calça para ela, e depois da décima que ela experimentou a lojista disse:
- "o senhor tem muita paciência, normalmente os homens não tem paciência quando uma mulher experimenta roupas"
E eu
- " esta é a vantagem que ela tem de ter um pai gay"

23 de junho de 2015

Já saiu hoje?

Para todo homossexual, masculino ou feminino, gay ou lésbica, existe um certo "momento de mutação" que é quando ele assume que é gay para uma pessoa. Podem falar o que for, a principio as pessoas sempre assumem que determinada pessoa é heterossexual e quando tem a confirmação que ela é homossexual, especialmente quando esta confirmação vem da própria pessoa, há um certo momento de "estranhamento". 
Quem é legal, quem é gente boa, se adapta facilmente a nova informação, os homofóbicos, mesmo que inconscientes, sempre tem dificuldade em lidar com a informação, acabam soltando alguma pérola do tipo "eu também tenho um amigo gay que preciso te apresentar" ou "você nem parece" ou ainda o fatal "que desperdício"...
Acho que de certa forma o mesmo acontece com héteros em ambientes gays, é difícil aquele rapaz que esta com amigas na boate gay não ser tido automaticamente como gay, neste momento é ele que tem que sair do armário para os outros ao redor... e ainda vai encontrar uns olhares enviesados...dos gays que acham que "a coca é fanta"...
Aos poucos a gente vai se acostumando a "sair do armário"...Você começa testando este seu "poder" de assumir-se, a sua segurança de "ser quem é" aos poucos, com conhecidos, com médicos, muitas vezes sem nem ter necessidade, apenas para testar - e se divertir - com a reação das pessoas... até que chega aquele momento que você nem lembra mais de fazer isto, você não lembra quem já sabe e quem não sabe...
Mas "sair do armário" mesmo para os mais desencanados, continua sendo uma momento chave na minha opinião.

Eu pessoalmente já estou na fase de me divertir com o assunto, me divertir com a reação das pessoas... E, de certa forma, como muitos, eu encaro isto como uma certa militância.... para marcar nosso território e mostrar que somos muitos e estamos em muitos lugares... Eu sinto, de coração, que quando eu saio do armário para as pessoas eu estou (humildemente) pavimentando o caminho para outros... 

Talvez aquele cara que me vendeu o novo sofá, que me viu junto com Mr Jay, usando alianças, discutindo como um casal a cor e o modelo do sofá, tenha um filho gay que ainda está no armário e que quando este filho se revelar ele vai tb lembrar de outras referencias além da Drag Queen caricata...
Talvez quando minha filha conta para os amigos que o pai dela é gay, e quando alguns me conhecem pessoalmente, eles sejam menos opressivos com seus colegas que parecem, e com os que são, gays e lésbicas...
Talvez quando eu abertamente falo para meus "colegas" de faculdade que "meu namoradÔÔÔ" está viajando, eu dê uma pequena chance deles tb poderem falar de suas particularidades
Talvez aquela pessoa que estava sentada a nosso lado no cinema, que viu quando tiramos o braço da cadeira e o Mr. Jay deitou no meu ombro durante o filme pense que nosso amor é valido como todos os outros, e eventualmente pode passar a olhar aquele colega de trabalho de outra forma...
Talvez sim, talvez não,  mas pelo sim, ou pelo não, eu sinto que estou fazendo minha parte...

E você? Já saiu (do armário) hoje? Para você este também é um ato político?