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11 de agosto de 2015

Micose Gay

Um dos grandes argumentos que sempre ouvimos, das pessoas que fazem questão de dizer que não tem preconceito contra os homossexuais, é: "eu não tenho nada contra, mas precisa fazer isto em publico?"
O argumento faz referência a questão do espaço público e do espaço privado, incluindo o acordo social tácito de que certas coisas - como demonstrações de carinho entre dois homens - devem estar restritas aos espaços privados. Meu contra argumento sempre é "se um casal hétero pode se beijar em público porque um casal gay não poderia?"
Eu pessoalmente não acho legal aqueles casais que "se sugam" em público, seja um homem e uma mulher, dois homens, duas mulheres... ás vezes numa balada mais quente, sabendo que as pessoas estão calibradas pelo álcool, dá ate para entender, mas na rua eu acho bem esquisito... me incomoda um pouco...seria eu careta? ou "beijodelinguafóbico"?

Mas ontem a noite me ocorreu um fato que me fez pensar um pouco nesta questão do público e do privado...
Estava lá eu na minha aula de História da Península Ibérica quando sentou do meu lado um "coleguinha" de seus 20 e poucos anos... ele estava trajando o outfit padrão de quem só faz faculdade: camiseta, bermudas e havaianas, e eu, como "pesquisador e futuro historiador", dei uma inspecionada no rapaz - um mocinho bem bonito aliás - mas meus olhos foram magicamente atraídos por seus dedões dos pés, cujas unhas eram absolutamente HORROROSAS E DEFORMADAS por micoses...ARGHHHH!
Era uma coisa absolutamente nojenta! Sério! Eu não sei se você que esta lendo isto está rindo ou esta com nojo... eu fiquei com nojo!
A minha primeira questão foi... "como alguém tem coragem (leia-se não tem vergonha) de sair por ai exibindo estas unhas FEIAS e ASQUEROSAS? Já que ele quer estar confortável que use um CROCS! Finalmente existe um motivo para usar CROCS! ... hummmm....será que todo mundo que vejo de CROCS está escondendo a sua micose?  Talvez isto explique muita coisa....

Eu já tive micose há uns anos atrás... e sério, eu iria á praia de meias para não mostrar nada! Fiquei meses sem mostrar os pés pois o tratamento de micose - bem feito e definitivo - demora muito!
Pelo perfil do colega eu logo imaginei que ele não tinha vergonha, pois muito provavelmente tinha aquela postura "as pessoas tem que me aceitar como eu sou" e isto não se referia somente ás suas crenças políticas, orientação sexual, gosto musical ou estilo de roupas... isto incluía as suas micoses, e ser contra elas talvez fosse um posição "pequeno burguesa", autoritária, ou da elite branca coxinha- se bem que ele era caucasiano...
Eu confesso que durante um bom tempo não consegui prestar atenção na aula... as peripécias de Dom João IV no processo da Restauração Portuguesa, e da dinastia dos Bragança, não foram suficientes para que meu pensamento saísse do módulo "micose, micose, micose" . E bem quando eu tinha decidido mudar de lugar para poder prestar atenção na explanação do Prof. Ricupero, o coleguinha acabou levantando e saindo da aula...bem na hora do tratado de Haia... ele saiu da aula e a Holanda deixou o Nordeste! 
Fiquei rindo sozinho... mas tenho certeza que o professor achou que eu estava adorando sua aula...e fiquei pensando...

Resultado de imagem para gay kiss cartoonSerá que o incomodo que eu senti quando vi aqueles pés cheios de micose sendo "esfregados" na minha cara é parecido com o que sentem algumas pessoas quando me veem abraçando ou beijando o Mr.Jay em algum lugar?
Será que em alguma situação, se eu tivesse uma criança pequena e ela chegasse perto dos pés daquele rapaz por exemplo, eu teria uma reação colérica pedindo que ele saísse, dizendo que ele deveria usar sapatos fechados, dizendo que ele deveria ficar longe das crianças porque elas poderiam "pegar" a micose? 
Será que eu apoiaria uma lei que criasse clinicas para cuidar da micose das pessoas, a "cura micótica", ou leis que restringissem a liberdade das pessoas com micose de saírem na rua? Ou deveria eu apoiar as pessoas que, como meu colega de faculdade, tiram suas micoses do armário e mostram para todo mundo? 
Eu diria que não tenho nada contra a pessoa que tem micose, eu até aceito a pessoa, mas ela deveria saber se comportar em público, deveria guardar sua micose para sí! Não é preconceito, é apenas meu pensamento! Isto não é errado é?

Seria o beijo gay uma micose? Talvez eu esteja exagerando na analogia, talvez eu esteja exagerando tanto na ironia que talvez ela reflita exatamente o que penso.... Não sei... Mas talvez eu tenha conseguido, finalmente, entender o que algumas pessoas sentem!

E você? Acha que devemos esfregar nossa micose na cara da sociedade?


13 de abril de 2014

I M P E R D Í V E L

Acabei de chegar do teatro, Mr Jay me levou assistir OU VOCÊ PODERIA ME BEIJAR, em cartaz no teatro do núcleo experimental, na Barra Funda. um espetáculo lindo, que fala de amor, de confiança, de envelhecimento, de descobertas. Uma montagem caprichada, com muita teatralidade, atores afiados e uma narração surpreendente! Clara Carvalho me deixou boquiaberto!
Confesso que fui ás lágrimas no final! 
Não vou contar detalhes para não estragar a emoção e as surpresas! Mas não deixem de ver! 
E a VEJA considera estas uma das melhores peças em cartaz, link do teatro:
 http://www.nucleoexperimental.com.br

 (onde tb dá para ler uma sinopse da peça para quem quiser! e a matéria da VEJA)

 
 

6 de fevereiro de 2014

Beijo "gay" na novela, que diferença faz?

Por não ter o hábito de acompanhar novelas eu confesso que eu nunca fui daqueles que esperou "ansiosamente" o beijo gay nas novelas. Os gays já estão nas novelas - e nas séries, e no dia a dia - há muito tempo, com persongens que sempre são policiados pela comunidade LGBT, e que ora são chamados de caricatos (acho que o próprio Felix foi chamado) , ora de efeminados, mas sempre com um viés de que "não nos representam".
E olha que já tivemos gays, lésbicas, bissexuais e trans de vários matizes nas novelas. Tem até uma série nacional em  que um machão bicheiro é casado com uma trans...
A princípio eu achei que todo mundo ia ficar em polvorosa com o evento, que ia ser comentado e incensado por dias a fio. Mas não foi o que aconteceu, menos de uma semana depois o acontecido já se tornou pauta velha nos assuntos e nas fofocas.
Mas eu fiquei pensando, até que ponto isto interferiria na minha vida? A minha resposta inicial - de mocinho que se acha super bem-resolvido - foi  - EM NADA!
Mas acho que não é bem asism que eu me sinto...
De certa forma este beijo legitimou alguma coisa, não sei bem o que, mas acho que ele ampliou a minha zona de conforto, foi algo parecido com o que aconteceu com a legitimação do casamento pelo Supremo.
Algo mudou no equilibrio delicado das forças do meu mundo interno...
 
Explicando:
Como já contei aqui, durante 10 anos eu vivi um relacionamento estável, e no período que estávamos morando juntos eu efetivamente passei a me sentir "casado".  Mas sempre tinha este casado entre aspas, poque efetivamente eu não estava casado e, na época, nem podia me casar. Mesmo assim quado alguem me perguntava, quem é fulano? - F é meu marido! eu respondia, ou ás vezes - F é "como se fosse" marido.
Mas á todo momento eu lembrava que dois caras não podiam casar, toda vez que eu falava isto eu lembrava. Eu tenho certeza que hoje eu teria muito mais poder para falar isto, eu me sentiria muito mais seguro de dizer, - Somos casados, - Ele é meu marido!, tenho certeza que quando eu me casar com Mr. Jay vai ser assim...
A legitimação do casamento, mesmo sem ser o PLC 1222, mesmo sendo "jurisprudência", me deu muito mais tranquilidade em ser casado com outro homem, eu acho que de certa forma este reconhecimento legitimou estas uniões e as equiparou a outras, o que deu mais peso e mais verdade.
 
No caso do beijo a minha sensação é parecida. Eu beijo o Mr. Jay com muita frequência em lugares públicos, para falar OI, para falar TCHAU, ou quando ele faz alguma gracinha...beijos no estilo Felix Niko, de carinho de amor, ....mas eu percebia que algumas vezes eu me retraia, eu deixava de dar o beijo na frente do porteiro do predio, ou no ambiente de trabalho dele, por achar que isto seria "inaceitável", e totalmente desproposital.
De certa forma este beijo do Walcyr Carrasco tirou um pequeno "lacre" na minha visão de mundo, de certa forma meus beijos parecem ser muito mais aceitáveis e menos transgressores do que eram...pode ser bobeira minha, pode ser homofobia internalizada, mas de certa forma saber que o beijo gay alcançou a novela das oito e milhões de lares faz o meu beijo parecer menos estranho.
 
E para você, este beijo mudou algo na sua vida?
 
 
 
 

6 de setembro de 2013

You´ve Got Mail!

O processo pelo qual cada um passa até chegar ao ponto de dizer , ao menos para si mesmo: "-eu sou homossexual" é bastante diferente de pessoa para pessoa.
Cada um vai se percebendo - e se negando - de uma forma diferente, e acho até que isto é diferente de geração para geração.
Meu namorado fala que tem gente que "recebe o email e demora para abrir". Quando ele vê alguém que percebemos que ainda está no armário, ele diz -" este deve estar com a caixa postal cheia de e-mails para abrir!"
Mas o mais interessante é que, depois de um tempo, você consegue ter uma "visão histórica" do que aconteceu com você.
Eu sempre fui gay! Posso afirmar isto hoje,  mas durante muitos anos eu me sentia apenas estranho. Eu ia nos bailinhos, dançava com as meninas, tomava fora, insistia, dançava com a vassoura... nos longínquos anos 70 da minha infância não existia a figura de FICAR, dar uns beijos e depois sumir... o que eu acho bem interessante hoje em dia, mesmo achando que banaliza um pouco o beijo.
Mas eu já era "fresco" (que era um outro sinônimo de "viado" na época). Quando brincava com meu irmão e minha irmã, de casinha, eu era o MORDOMO da casa...quer coisa mais gay que isto? E era muito esmerado na decoração da casinha! RSRSRSRS!
Tive minha namorada de praia, tive algumas paixonites de longe... e naturalmente fui apaixonado pela professora da 1a. série, a  D. Aparecida (naquele século ninguém chamava professora de TIA), uma loirona platinada com um sorriso lindo!
Quando fui ficando adolescente eu perdi o entusiasmo para sair caçando, sair com amigos para "pegar mina" nunca fiz, eu saia de turma, turma grande, para ficar camuflado na turma, sempre conversando mais com amigas que amigos.
Eu sempre gostei da figura masculina. Na casa do meu tio sempre tinha revistas Playboy e ELE ELA no banheiro, e eu me lembro de me interessar muito mais pelas propagandas de cuecas do que pelos posters... Naquela época não tinha email...então eu não ia receber um!
Eu não sou efeminado, embora ache que dou pinta eventualmente, mas na época eu era apenas um garoto muito arrumado - que ia na balada até de gravata de crochê (um must na época), um garoto muito educado, que gostava de conversar com gente mais velha, que curtia musica clássica. Muitos anos eu descobri que eu era um "dândi" (!!!!)
Na faculdade eu era assexuado, ou ainda era muito inocente, ou estava negando com todas as minhas forças, mas eu passei batido em termos de pegadas, de namoros - mesmo tendo sido eleito pelas colegas o "mister bundinha" em dois anos seguidos!
Mas ao mesmo tempo, desde os 17, eu trabalhava, tinha meu dinheirinho, e comprei minha primeira revista gay e depois várias, Jornal Lampião, Sui Generis, Alone, alguns estrangeiras como Mandate, Honcho, cuidadosamente escondidas em casa, dentro de um envelope, dentro de um outro envelope, dentro de uma pasta, dentro duma gaveta com coisas da faculdade, (eu fico lembrando e rindo sozinho aqui)
E comecei a alugar filmes eróticos, primeiro filmes bissex para "disfarçar" na locadora. Mas era um "trampo" para assistir, só um vídeo cassete na casa...rsrsrss...o medo de ser pego era um frisson a mais!
Lembrem que estou falando de uma época pré-internet, nada se falava de homossexualidade na televisão, ou melhor, começaram a falar, mas para falar do "câncer gay", a SIDA, a AIDS. Os guetos, as saunas, os hábitos promíscuos dos gays foram parar na imprensa, para justificar porque aqueles seres "abjetos" de hábitos promíscuos estavam sendo contaminados...
Não tinha chat, grupos, gay era o cabelereiro da sua mãe, ou o Clóvis Bornay no carnaval... Nossa e eu adorava ver as fantasias de carnaval, os desfiles daquelas figuras meio andróginas, cheio de brilho e ousadia. Sim eu com certeza já era gay!
   
dica: MENSAGEM PARA VOCÊ (You´ve Got Mail) é um filme delicioso! Já assistiu? You´ve Got Mail!