Para quem vive em marte e não está sabendo... uma parte da trama da novela Babilônia gira em torno de um casal de lésbicas (Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg), que vão se casar, numa grande festa, após décadas vivendo juntas.
Isto, e também a estabilidade de meu relacionamento com Mr. Jay, tem me feito pensar muito em casamento.
Eu sou de uma geração de homens gays que conviveu por décadas com a certeza que não seria possível casar, que as leis nunca aprovariam o casamento entre dois homens. Então, de certa forma, cristalizou-se em mim a ideia de que eu "não iria me casar". Nunca fiz planos para isto, nunca tive fantasias com relação á cerimonias, á igreja... como é normal as pessoas fazerem. Do mesmo jeito que durante muitos anos eu tinha desistido da ideia de ser pai
Não que eu não fui capaz de assumir meus relacionamentos de forma absolutamente concreta e encarar muitas vezes a sociedade de frente. Eu e o F. passamos a usar alianças na mão esquerda quando fomos morar juntos, e eu sempre o apresentei ou como "namorido" ou como "como se fosse meu marido" (falando exatamente deste jeito) para pontuar que eu o considerava marido apesar da lei não o permitir.
Na minha geração de homens gays, mesmo as pessoas estando envolvidas em longos relacionamentos, do ponto de vista legal eles eram... "solteiros". Há alguns anos houve o advento das parcerias civis, o que já mudou parcialmente o status das relações, mas foi somente com a validação do casamento igualitário (ainda que não seja lei) que as coisas efetivamente mudaram do ponto de vista legal.
É CLARO que eu sou totalmente a favor do casamento! Não só pelo simbolismo como pelos direitos que se adquire. Eu apenas não tinha parado para pensar que EU poderia me casar! E, como vocês sabem, mesmo assim eu nunca fiz o perfil de "solteirão convicto", muito pelo contrario.
Por mais que você se sinta responsável pela pessoa, compromissada com a pessoa, colocar isto num papel oficial deve ter um peso. Você ser chamado a, por exemplo, opinar sobre a saúde da pessoa num momento crítico, ou ser arrimo de uma família num outro caso, deve ter um peso enorme quando você documenta isto. Mas eu sempre senti que eu nunca precisaria de um papel, porque eu sempre agi assim, meu compromisso no "fio do bigode" é para valer. Não acho que eu seria menos pai, ou menos marido, com a presença ou ausência de um papel....
Será que eu me fiz entender? Talvez seja uma coisa libertária, meio ANOS 60, ou talvez seja só medo de alguma coisa dar errado por causa do papel, não sei bem...
Mr. Jay tem vontade de se casar, já conversamos a respeito. Ele tem vontade de se casar com tudo que tem direito: festa e lua de mel inclusos no pacote. O que num primeiro momento até me surpreendeu, pelo fato dele ser jovem, pelo fato dele ser gay, pelo fato dele nem ser tão religioso... mas ele argumentou...
"- Qualquer casal que namora fala em casamento! Porque entre gays deveria ser diferente?"
TOUCHÊ!
E não é que ele tem razão? Imagino que com todos os direitos adquiridos atualmente os jovens e as jovens homossexuais pensam naturalmente em casamento. Não há mais um impedimento legal (embora ainda existam barreiras sociais), do mesmo jeito que eu imagino que eles pensam naturalmente em ter filhos... ou por inseminação, ou por adoção... Será que está na hora de eu "rever meus conceitos"?
Sinto que nesta altura de minha vida o casamento não teria todas as implicações que teria na vida de um jovem casal, pessoas em começo de vida, quando se está construindo as coisas, mas teria sem dúvida um grande impacto social, em especial no meu entorno mais próximo, faria com que as pessoas tivessem que se posicionar! E não vou dizer que isto não me é agradável, marcar posição e território, a meu ver, dá espaço para outras pessoas respirarem. Fortalece uma ideia, melhora a auto estima de todo um grupo.
E você o que acha? Quem não casou ainda está querendo casar? E quem casou, valeu a pena?