8 de abril de 2015

Casamento serve para que mesmo?


Para quem vive em marte e não está sabendo... uma parte da trama da novela Babilônia gira em torno de um casal de lésbicas (Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg), que vão se casar, numa grande festa, após décadas vivendo juntas. 
Isto, e também a estabilidade de meu relacionamento com Mr. Jay, tem me feito pensar muito em casamento.

Eu sou de uma geração de homens gays que conviveu por décadas com a certeza que não seria possível casar, que as leis nunca aprovariam o casamento entre dois homens. Então, de certa forma, cristalizou-se em mim a ideia de que eu "não iria me casar". Nunca fiz planos para isto, nunca tive fantasias com relação á cerimonias, á igreja... como é normal as pessoas fazerem. Do mesmo jeito que durante muitos anos eu tinha desistido da ideia de ser pai

Não que eu não fui capaz de assumir meus relacionamentos de forma absolutamente concreta e encarar muitas vezes a sociedade de frente. Eu e o F. passamos a usar alianças na mão esquerda quando fomos morar juntos, e eu sempre o apresentei ou como "namorido" ou  como "como se fosse meu marido" (falando exatamente deste jeito) para pontuar que eu o considerava marido apesar da lei não o permitir.
Na minha geração de homens gays, mesmo as pessoas estando envolvidas em longos relacionamentos, do ponto de vista legal eles eram... "solteiros". Há alguns anos houve o advento das parcerias civis, o que já mudou parcialmente o status das relações, mas foi somente com a validação do casamento igualitário (ainda que não seja lei) que as coisas efetivamente mudaram do ponto de vista legal.
É CLARO que eu sou totalmente a favor do casamento! Não só pelo simbolismo como pelos direitos que se adquire. Eu apenas não tinha parado para pensar que EU poderia me casar! E, como vocês sabem, mesmo assim eu nunca fiz o perfil de "solteirão convicto", muito pelo contrario. 
Por mais que você se sinta responsável pela pessoa, compromissada com a pessoa,  colocar isto num papel oficial deve ter um peso. Você ser chamado a, por exemplo, opinar sobre a saúde da pessoa num momento crítico, ou ser arrimo de uma família num outro caso, deve ter um peso enorme quando você documenta isto. Mas eu sempre senti que eu nunca precisaria de um papel, porque eu sempre agi assim, meu compromisso no "fio do bigode" é para valer. Não acho que eu seria menos pai, ou menos marido, com a presença ou ausência de um papel....
Será que eu me fiz entender?  Talvez seja uma coisa libertária, meio ANOS 60, ou talvez seja só medo de alguma coisa dar errado por causa do papel, não sei bem...

Mr. Jay tem vontade de se casar, já conversamos a respeito. Ele tem vontade de se casar com tudo que tem direito: festa e lua de mel inclusos no pacote. O que num primeiro momento até me surpreendeu, pelo fato dele ser jovem, pelo fato dele ser gay, pelo fato dele nem ser tão religioso... mas ele argumentou... 
"- Qualquer casal que namora fala em casamento! Porque entre gays deveria ser diferente?"
TOUCHÊ! 
E não é que ele tem razão? Imagino que com todos os direitos adquiridos atualmente os jovens e as jovens homossexuais pensam naturalmente em casamento. Não há mais um impedimento legal (embora ainda existam barreiras sociais), do mesmo jeito que eu imagino que eles pensam naturalmente em ter filhos... ou por inseminação, ou por adoção... Será que está na hora de eu "rever meus conceitos"?
Sinto que nesta altura de minha vida o casamento não teria todas as implicações que teria na vida de um jovem casal, pessoas em começo de vida, quando se está construindo as coisas, mas teria sem dúvida um grande impacto social, em especial no meu entorno mais próximo, faria com que as pessoas tivessem que se posicionar! E não vou dizer que isto não me é agradável, marcar posição e território, a meu ver, dá espaço para outras pessoas respirarem. Fortalece uma ideia, melhora a auto estima de todo um grupo.

E você o que acha? Quem não casou ainda está querendo casar? E quem casou, valeu a pena?



3 de abril de 2015

gosto se discute?

Esta semana eu me peguei sendo extremamente preconceituoso, arrogante e cínico!
Eu e minha filha fomos comer no shopping, no caixa eu notei que o atendente do restaurante, tinha uma tatoo enorme e colorida  no antebraço esquerdo... que eu não conseguia ver direito o que estava escrito.... aí,  como sagitariano curioso eu perguntei - " O que está escrito na sua tatoo?"
Eis que ele me mostrou:
Deste jeitinho... com as mesmas cores e tudo...

Eu não consegui disfarçar meu estupefato... nem minha filha... 
Mas ela ainda foi delicada, disse:
- Que legal, naquele tom de "vergonha alheia" que ás vezes temos que assumir.
Só que eu fui dei um escroto, bem mal educado, num comentário desnecessário 
- Eu jamais faria uma tatoo em homenagem a alguém que se mostrou extremamente preconceituosa, como a Joelma".  E fiz este comentário propositalmente, porque tinha percebido que o rapaz era gay... na minha visão estreita era um gay que absurdamente gostava da banda Calypso...
O rapaz ainda tentou remediar "eu tenho um amigo meu, que trabalha com a Joelma, que disse que ela foi mal interpretada"... mas eu fiz aquela cara de "me engana que eu gosto".

Perceberam o quão grosseiro e estúpido eu fui?
Ás vezes a gente fica tão preocupado em "se defender", em "marcar território", de "educar as pessoas para a diversidade", de "denunciar as injustiças" que a gente esquece de ser educado, de respeitar os outros...e  já sai julgando, apontando o dedo... coisa que a gente acha tão errado fazer... me peguei fazendo igual...

Na hora eu nem percebi direito o que tinha feito, ainda estava ligado no módulo "justiceiro",  e até liguei para o Mr. J para contar o absurdo da tatoo, para contar "vantagem" de como eu tinha "marcado território" contra os homofóbicos... só fui perceber horas depois, em casa... o quanto tinha sido idiota...
Idiota... do pior tipo, aquele tipo que "come cocô"...

Talvez o rapaz tenha feito a tatoo anos antes das declarações da Joelma, talvez ele tenha feito depois, talvez a Joelma nem seja homofóbica, talvez mesmo ela sendo homofóbica ele goste dela, talvez ele se envergonhe de ter aquela tatoo e fique constrangido cada vez que alguém comenta isto, talvez a banda Calypso não seja tão ruim quanto eu acho, talvez um monte de coisa...
A unica certeza, que não é talvez, é que eu tenho que aprender a ser menos idiota!

Você tem algum conselho para alguém que está tentando ser menos grosso, preconceituoso, arrogante e idiota?

1 de abril de 2015

Parabéns Edith

O site BuzzFeed, que é especializado em listas, listou as " 30 personalidades que lutam pelo movimento LGBT que você precisa conhecer ", uma lista com muita gente interessante e que, realmente, tem feito muito pela luta dos direitos da igualdade. Fiquei muito feliz em encontrar a incansável Edith Modesto na lista!

30 de março de 2015

Faça como os animais....


A peça publicitária acima faz parte da nova campanha da RESERVA, uma marca de moda jovem descolada (e cara) que o pessoal adora. É claro que alguns podem criticar, dizendo que é apenas uma estratégia de marketing, que só fizeram a campanha para ganhar dinheiro, que se faz tudo pela midia e para virar noticia, e "piriri, pororó". Eu até concordo, não sei se este pensamento da RESERVA se reflete em sua politica de RH (já comprei para sobrinhos alguma vez na loja e nunca vi atendente gordinho), ou  se eles apoiam outras causas e etc... 
Mesmo que pensemos que é só uma "gotinha" no oceano para fazer rir e afagar as minorias eu acho legal. Acho que toda forma de combater o preconceito surte algum efeito ... Aliás, o contrário também, como fez a marca Sergio K, numa campanha durante a copa, considerada homofóbica, sexista e xenófoba, excelente exemplo de  "tiro no pé". (CLIQUE AQUI se não lembra da estória)

Eis as outras peças da campanha da Reserva, que falam sobre o PRECONCEITO:







25 de março de 2015

para não dizer que não falei... DO BEIJO GAY....


Eu não sou um grande "assistidor" de novela, mas tenho acompanhado BABILÔNIA... o beijo de Fernanda Montenegro e Natalia Timberg logo no primeiro capitulo me deixou verdadeiramente surpreso e confiante na mudança de algumas coisas!

A polêmica anterior - "Felix vai beijar ou não?" - mobilizou muita gente e muita opinião, e no final teve o beijo! Mas nesta novela nem teve polêmica, já começou com o beijo, sem concessões, sem discussões... agora o Marcos "in"Feliciano quer boicotar até a Natura, por patrocinar a novela...
Tenho me divertido muito com os posts, no facebook e em blogs, contra-argumentando a teoria de que "ver beijo gay na novela" vai "abalar a família" e fazer as crianças "virarem gays".. Os melhores dizem "NÃO ASSISTA A NOVELA". Ponto!
Outros argumentam que está na hora de pararmos de falar em beijo gay, beijo lésbico, pois não falamos em beijo gordo, beijo velho...
Vai ter gente virando ninfomaniaca (por causa da Glória Pires), prostituta de luxo (por causa do Bruno Galiasso), chantagista (por causa da Adriana Esteves) e barraqueira (por causa da Camila Pitanga que vive dando "barraco"...)
Eu já vi muito beijo hétero na novela, e nem por isto virei hétero... 

Eu estou achando tudo lindo, não só por mostrar uma duradoura relação, como por mostrar o amor na maturidade. Eu acho lindo cada vez que a Fernanda Torres fala : "Eu faço tudo para ver minha mulher feliz"! Me identifico muito com isto!

E pelo que sei, ainda vamos ter outros casais gays na trama! Que venham os beijos!

Neste mundinho de meu Deus a gente é chamado a ter opinião sobre tudo! Qual sua opinião sobre o beijo?

19 de março de 2015

Vote contra o Estatuto da Família!

Repassando:

"Atenção de todos pra essa votação online
A Câmara dos deputados está promovendo uma enquete querendo saber se:
"Você concorda com a definição de família como núcleo formado a partir da união entre homem e mulher, prevista no projeto que cria o Estatuto da Família? "
Infelizmente o SIM está ganhando! Divulguem o máximo que puderem!
Clique AQUI e vote!
Votem no NÃO!!
REPASSEM para os contatos, precisamos votar no NÃO!!"

12 de março de 2015

Blame on me!

Resultado de imagem para o mais importante não é resolver um problema, é achar um culpadoEu trabalhei por alguns anos numa empresa cujo lema de diretoria parecia ser : " O mais importante não é resolver o problema! É achar um culpado!". Ou seja, quando havia alguma situação não programada o esforço primeiro era em descobrir quem fez "algo errado" que "deixou" que aquilo acontecesse...e  isso era muito difícil para mim, tanto que acabei saindo...

Com relação á homossexualidade existem muitas situações em que o rapaz (ou a moça) que se percebe "diferente" se sinta culpado, culpado de não controlar suas emoções e sensações, culpado por ser a vergonha da família, culpado de envergonhar a família e decepcionar os pais...

Mas também é muito comum, que os pais, quando descobrem que os filhos ou filhas são homossexuais,  sintam que fizeram "algo errado" ou que "deviam ter feito algo" para que isto não acontecesse, isto parece ser particularmente grave para as mães, que sempre se sentem culpadas, e são culpadas pelos pais, de terem feito algo errado - você mimou muito este menino! 
A Professora e Militante Edith Modesto fala disto com muita propriedade, e seu livro MÃE SEMPRE SABE mostra todas as fases pelas quais as mães passam (veja AQUI e AQUI). E ela consegue explicar porque isto acontece.

Como pai eu entendo bem este sentimento de "achar que podia ter feito algo melhor", eu experimentei esta sensação em diversas situações, quando eu resolvi que minha filha só faria tratamento homeopático eu sempre achava que podia ter feito melhor quando ela tinha crises de tosse durante a noite e eu não podia usar cânfora ou xarope; quando coloquei ela numa escola de período integral eu achava que poderia ser melhor se ela não ficasse o dia todo a escola; quando eu não insisti para ela praticar a sério um esporte de alto desempenho eu também pensava que ela poderia se beneficiar muito da disciplina exigida pelo esporte de ponta.... ou seja, toda ação traz em si um contraditório, uma outra possibilidade mesmo que fosse de inação!
No papel de pai temos que lidar com isto, decidir pelo bem estar e pelo futuro de alguém que ainda não pode tomar suas próprias decisões! Isto amedronta um pouco não?
E você é sempre cobrado, pela avó, pelos parentes, pelo namorado, pelos amigos, pela professora... que vc não devia ter feito deste jeito, deveria ter feito deste outro jeito, porque opinião é que nem _ ´_ , cada um tem o seu!

Mas há algumas semanas eu fui cobrado... pela filha! 
CUMA? Como é que é?
Ela ainda não tinha sido aprovada na USP e achava que não ia passar, e conversávamos sobre a indisciplina dela para estudar, como ela tem dificuldade de organizar o tempo e perseguir metas de estudo - sendo sempre muito dispersa- quando ela virou para mim e disse "você deveria ter me cobrado mais e sido mais exigente! eu jamais vou colocar meu filho no colégio que eu estudei, você deveria ter me colocado em outro colégio mais puxado"

Como é que é? Eu fiz tudo errado?

Mesmo eu achando o argumento dela estapafúrdio - pois ela estava querendo achar um culpado por ela ser indisciplinada - eu confesso que dei um pouco de razão para ela, eu pensei se eu podia ter feito "algo melhor". 
Eu realmente assumi a postura de não cobrar muito e deixar ela experimentar as consequências de seus atos - não estudar muito ao longo do ano e ter que se esfolar para passar nos últimos dois bimestres - se bem que ela sempre passou direto(com notas ridículas na minha opinião) e nunca ficou sequer de recuperação. Não ficar neurótico com as notas (com eu era comigo mesmo quando jovem) e deixar ela assumir as consequências foram decisões minhas, que ela estava me dizendo, na lata, que eu podia 'ter feito melhor".

Eu confesso que o meu planejamento foi sempre para ERRAR MENOS e nunca de acertar 100%!

Do mesmo jeito que as mães, sem necessariamente serem "yiddish mom", tem um jeito especial (e eventualmente maquiavélico) de fazer com que seus filhos se sintam culpados, por elas mesmas sem sentirem erradas, os filhos também conseguem fazer com que os pais se sintam culpados, por serem desta ou daquela forma! Eu achei isto muito divertido! fiquei rindo  com a estória e contei para muita gente!
Wood Allen já contou esta estória muitas vezes,
 clique no link da yiddish mom que coloquei acima 
e veja um texto muito engraçado de Eva Lazar!


Blame on me sweetheart! Eu fiz o que pude! O meu melhor! E continuo fazendo! Beijinho no  ombro!

Filhos não vem com manual, filhos não vem com gráficos e nem tabelas, filhos não são notas promissórias garantidas para descontar, filhos são safaris sem mapas, são aventuras em cavernas escuras! Se eu tivesse 20 filhos mesmo assim ainda saberia pouco sobre estes seres!

Mas é uma aventura incrível, eu recomendo! É delicioso poder se perder sem manual, eu aprendi muito mais sobre ser filho - e que porre de filho eu sou - quando me tornei pai! 

E me diga você... de quem é a culpa por você ser como é?


3 de março de 2015

Qual a diferença de um relacionamento hétero e de um relacionamento homo?


Diferença? NENHUMA! 

Como sabem eu faço parte de um grupo de Pais Homossexuais (HOMOPATER). Este grupo, além de encontros presenciais, mantém um grupo virtual de discussão muito rico, sempre com discussões interessantes e temas palpitantes (que todo mundo quer dar palpite)  Como este grupo é formado majoritariamente por pais que viveram um casamento heterossexual, e como sempre tem pessoas novas entrando, alguns assuntos são recorrentes, mas mesmo alguns assuntos se repetindo eles sempre são tratados de maneira diferente, principalmente porque são discutidos por pessoas diferentes em momentos diferentes... São homens que "eram" heterossexuais e "viraram" homossexuais. São homens que tem que reconstruir suas fés e crenças, são homens que tem que reconstruir uma identidade.

Um assunto recente foi o questionamento de um participante que disse que "ainda não sabia se relacionar com um outro homem, pois, todos sabem, relacionamentos entre homens são diferentes dos relacionamentos de homens e mulheres!"

A princípio eu concordo com ele, homens e mulheres são diferentes! Homens tem pinto, mulheres tem vagina, homens tem barba, mulheres (exceto Frida) não, homens são brutos, mulheres delicadas, homens são práticos, mulheres amorosas... ou seja, um relacionamento entre um homem e uma mulher é diferente de um relacionamento entre dois homens! COM CERTEZA!
Só que, a meu ver, esta é uma analise simplista pois eu sei que dois relacionamentos não são iguais, um relacionamento entre uma mulher e um homem não é o mesmo que o relacionamento entre outro homem e outra mulher, ou seja, não existem dois relacionamentos iguais! Não existem modelos para serem seguidos entre um homem e uma mulher (se fizer assim vai dar certo!), entre um homem caucasiano e uma mulher negra, entre um homem nordestino e uma mulher carioca, entre um cara baixinho e uma mulher alta, entre um homem e outro homem, não existem dois relacionamentos iguais!

Tem muita gente que acha que os gays tem que "inventar" um novo modelo de relacionamento, um novo padrão, distante do padrão hétero, para não imitar, ou como dizem "simular" um casamento hétero. Falam que relacionamento aberto seria bom porque dois "bodes soltos" pastam melhor... Outros falam de relacionamento poliamoroso, e até mesmo que homens nem devem ter relacionamento... mas não se engane, todos querem sugerir um padrão para saber quem está "certo" e quem está "errado", para normatizar... principalmente porque a gente está sempre querendo fazer a coisa certa para ser aceito, para se sentir normal! E nada mais anormal - e deliciosamente anárquico - que não seguir um padrão!

Quando a gente entende isto é que começa a conseguir verdadeiramente se relacionar com alguém, quando descobre que não tem padrão, que o OUTRO é único e tudo que vc viver com ele vai ser único, vc descobre que não deve ter o objetivo de encaixar ele no seu padrão... você deixa as coisas acontecerem... é claro que eu sei que um relacionamento homossexual enfrenta questões que um casamento hetero não enfrenta, mas eu estou falando de sentimento, de coração, e isto sempre é diferente!

E ai? Qual o seu padrão de relacionamento gay?