29 de setembro de 2015

O PRIMEIRO QUE DISSE(*)

Eu me lembro nitidamente do primeiro momento em que eu fui reconhecido como gay!

Eu estava no segundo colegial e meu amigo, que aliás era meu melhor amigo na época, virou e me disse "você devia controlar o seu jeito de falar, de agir, você parece tão viado!"
Aquilo foi um baque para mim! Eu estava com 15 anos e já sabia que eu tinha atração pelo corpo masculino, já tinha em meus "guardados" várias propagandas de cuecas, cigarros e perfumes masculinos, com homens másculos e lindos nas imagens, mas eu nunca tinha imaginado que eu poderia ser homossexual - que eu nem sabia bem o que era - e muito menos que isto pudesse transparecer... Percebi nele uma condenação que nas entrelinhas dizia "se você continuar agindo deste jeito não vou mais poder andar com você pois PEGA MAL".
Depois disto eu progressivamente me retrai,  me afastei dele, comecei a cabular as aulas de educação física para não ter que frequentar os vestiários das quadras, do ginásio e das piscinas, com receio que mais alguém comentasse isto, e - por conta das minhas notas, que também  pioraram - acabei, para minha "sorte", repetindo em química. Minha mãe achou injusto eu perder um ano de vida por uma disciplina - cujo professor, hoje percebo, também era visivelmente gay - e eu acabei indo para um outro colégio que oferecia a possibilidade de cursar disciplinas em "dependência".
Como disse, eu tive "sorte" em repetir e não ter que enfrentar mais um ano no mesmo ambiente...

Mas nem tudo foi ruim naquele colégio, eu mantive a amizade da M, minha melhor amiga hoje em dia, da qual sou muito próximo, sendo ela a madrinha de minha filha... e eu padrinho do filho dela...
Ela, que também era da mesma turma, continuou amiga dele, e em função das redes sociais até voltaram a se reaproximar nos últimos tempos...
Mas o "mundo vasto mundo" é um lugar INCRÍVEL, muito mais interessante do que a gente imagina... então , a partir de agora, devo comunicar que este post passa a ter um novo título:

  "O PRIMEIRO QUE DISSE... 
...FOI O ÚLTIMO A SAIR DO ARMÁRIO"
contextualizando...

Faz uns dois meses esta minha amiga M foi convidada para um jantar na casa do tal amigo - que foi o primeiro a me achar "viado" -  e levou o filho mais velho dela. Na saída, quando entraram no carro, o filho dela disse:
Resultado de imagem para gaydar- Mãe porque você não me disse que seu amigo era gay?
- Como é que é? - disse ela
- Ué, ele não é gay? Aquele cara que estava lá -um negro alto e forte que ele sempre apresenta como "sócio" - não era o namorado dele?
- Cuméquié? - ela ficou estupefata.
- Ele é muito mais gay que o o padrinho, desmunheca muito mais!
- Cuma? - e ela começando a fazer contas...

Para explicar este enredo devo dizer que meu afilhado, que tem 20 anos, passou grande parte de suas ferias de janeiro e julho, dos 6 até os 17, aqui em São Paulo na minha casa - pois moravam no interior e aqui é muito mais legal para passar as férias - e em função disto ele sempre conviveu com meus amigos gays e lésbicas, com meu ex, portanto é um jovem de cabeça aberta e com um "gaydar" relativamente calibrado. No contraponto esclareço que a minha amiga, mãe dele, apesar de ser pós-doutorada e ter uma carreira reconhecida internacionalmente na especialidade médica que atua, é loira - legitima - e portanto muito desligada, pois apesar de ter um BFF gay, e do irmão dela ser gay, ela nunca percebeu nada...

Imediatamente ao chegar em casa (1:00 da manhã) ela me ligou, e relatou o episódio. Eu, que nunca tinha contado para ela que ele tinha sido o "primeiro que disse", contei a estoria. Imediatamente minha cabeça ficou imaginando o quanto daquela reação dele naquela época já era a homofobia internalizada dele se manifestando... mas a unica coisa que sabia dele era que tinha quase casado aos 20 e poucos anos e que a noiva desistiu uma semana antes (!!!! imaginando o motivo !!!) e que depois disso ele nunca mais teve ninguém...
Ela fez mais "contas", pensou em outros episódios onde encontrou ele, e o "sócio", recordou mais estorias, e acabou por concluir que o filho dela tinha razão, ela acabara de descobrir que o tal amigo era gay!
Ai ela me perguntou o que ela devia fazer, ... ou melhor, se devia fazer algo... ela me disse que ele sabe que ela é muito próxima de mim, que sou gay, e se dizia até meio triste por ele não ter confiado nela, não ter se aberto com ela...
Resultado de imagem para liberdadeEu expliquei que muitas vezes as pessoas vivem num armário tão fechado, mas tão maravilhosamente decorado, que elas tem muito medo do "Mundo Exterior", elas se acostumam com a situação... mas que elas estão sempre esperando uma chance de serem quem realmente são... Eu disse para ela, "se você tem certeza, se você acha que não vai magoa-lo, fale abertamente sobre o assunto, dê a chance dele conversar com você, mostre que você não tem preconceito e aceita ele... ele passou tantos anos tentando não parecer que é gay que ele talvez não aceite bem sua oferta, mas se ele aceitar a amizade de vcs vai mudar de patamar"

Uns 20 dias depois ela me ligou....Como ela não é mulher de ficar parada, esperando as coisas acontecerem, deu um jeito de agendar um outro encontro, com ele e outra amiga que ambos ainda mantém da época do colegial (a.k.a ensino médio) e, de comum acordo com esta amiga,  foi direto ao assunto... precisou dar uma forçada pois ele se fez de desentendido no começo, mas ele acabou saindo do armário... se abrindo, chamando o tal "sócio", que ele não tinha levado no jantar para se juntar ao grupo (que barra este tipo de vida!) e falando abertamente do assunto... falou que a mãe e a irmã nada sabem, que nunca teve coragem de falar, falou até que chegaram a pensar em adotar uma criança, e que teve vontade, mas não teve coragem, de vir conversar comigo...

Como diria o ditado, o mundo é um lugar redondo!

Fiquei feliz por ele, por ela, pois agora serão mais amigos com certeza, pois serão mais verdadeiros em suas conversas, mas tb fiquei muito feliz por mim, por ver como algumas das escolhas e caminhos que tomei fazem com que eu viva tão bem hoje... nem imagino como seria minha vida se tivesse que dizer que o Mr. Jay é meu "sócio".
...isto me fez lembrar das histórias dos "sócios" do Gugu Liberato...

E você? Já foi tirado do armário por alguém? Conta ai!

Resultado de imagem para o primeiro que disse
(*) A inspiração para o titulo do post veio do delicioso filme italiano O PRIMEIRO QUE DISSE, cujo titulo original MINE VAGANTI se refere aquelas minas flutuantes, que se encostar explode... que também pode ter o sentido de "bala perdida" aquela que acerta sem ter um alvo específico...(TRAILER AQUI) acho até que tem no NETFLIX.




21 comentários:

  1. Incrível esta sua história. Nunca tirei ninguém do armário, pelo menos q eu saiba. Já encontrei e convivi com mitos assim, apenas tentei ajudar dando meu exemplo e "testemunho" [palavra complicada esta - rs]. Acho q nunca adiantou mas, também nunca liguei para isto. Cada um na sua. Isto tudo me fez pensar em meu passado e não lembro [não lembro mesmo] de quando foi este toque de outro sobre a minha sexualidade. Isto está me intrigando.

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  2. Nunca tirei e nunca o farei, pois o espaço de cada um é só seu.

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  3. Anônimo10:53 PM

    Nunca tirei ninguém do armário até por que eu ainda não saí do meu e acho que cada um deve ter seu espeço respeitado.
    Mas lembro que desde que me conheço por gente sempre senti atração pelo sexo masculino. Eu já sabia que era homossexual muito antes de saber o que era ser homossexual.
    Me lembro de uma vez que levei uma amiga de infância na festa junina do colégio e num dado momento em que estávamos junto com meus colegas ela se dirigiu a outra menina, que era minha melhor amiga na época, e apontando para mim disparou ''sabia que ele é bixa?''. Aquilo foi como levar um tapa na cara. Tive vontade de socar ela ali mesmo. Mas na hora me senti humilhado, sem graça e sem saber como agir e pensei que se soubesse que ia passar por aquilo não a teria levado.
    Já na faculdade, isso foi há pouco tempo, teve um colega que é evangélico, faz o tipo do "não tenho preconceito mas...", faz post no Facebook defendendo a tradicional família brasileira, critica a chamada ditadura gay e tal mas que eu sempre desconfiei que é gay, pois sempre fomos muito próximos e sempre me enxerguei nele, sempre o achei muito parecido comigo. E muitas das suas atitudes se parecem com as que eu tinha até recentemente. O tempo passa e até hoje desconfio que jogamos no mesmo time. Mas se isso vai se confirmar ou não, só o tempo dirá...

    Juliano Castro

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    1. poxa Juliano! que bela amiga esta sua!

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  4. Cada um sabe de si, e por vezes as pessoas tem medo de serem identificadas como gays. Os Homofóbicos são todos gays, um Hetero a sério, esta-se nas tintas para o que o amigo ou o vizinho anda a comer...

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    1. vc tem razão, um hetero está "nas tintas" para o que os outros comem, ou dão!

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  5. Há certas atitudes que me deixam perplexo. Como a desse indivíduo que se dirigiu a você alertando para o jeito de falar, a postura. Que disparate. Quantos são mais delicados e isso nada tem a ver com a orientação sexual?

    Estereótipos que diminuem, ainda que lentamente.

    Subscrevo o que o Francisco disse: os heterossexuais seguros da sua sexualidade não são homofóbicos nem reagem agressivamente perante alguém homossexual; isso é próprio de pessoas inseguras, amedrontadas.

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    1. acho que nunca vamos escapar dos estereotipos, se um desaparece ja surge outro.. a nossa "maquininha" de julgamentos esta sempre ligada

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  6. E eu que achava que isso era coisa da "minha geração", já que o mundo atualmente é cada vez mais aberto pra esses assuntos. Como outros já disseram, cada um tem seu tempo e sua história. Feliz de você, que já se aceitou há bem mais tempo que o seu antigo colega. Abs.

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    1. é incrivel Marco, mas as coisas não estão evoluidas - abertas - como imaginamos!

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  7. Na pré adolescência, no colégio, sempre me davam uns apelidos nada convenientes. Mas seguia a vida,fazer o que!

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    1. vc foi um gentleman em dizer que eram "apelidos nada convenientes" , alias, sempre um gentleman! Este sim um apelido conveniente para vc!

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  8. Tormentos da juventude. Sempre considerei a humilhação ( e quase sempre o "primeiro que disse" tinha uma predileção sádica ) uma das emoções mais destrutivas na formação da visão de mundo de uma pessoa. O que foi feito do meu "primeiro que disse" eu não sei. Espero que não tenha sido humilhado e tenha desenvolvido alguma compaixão por si e pelo outro. O mundo não está mais aberto à afetividade , seja lá qual expressão tenha, mas continuo acreditando que o melhor do ser humano é maior que o seu pior!
    bjs

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    1. tb acho isto Jose antonio! o melhor do ser humano é maior do que o seu pior.... mas o pior dá mais visibilidade! rsrsr

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  9. Nem sei o que é armário, sempre fui o que sou, claro que na adolescência me vi com um rotulo que outros colocaram, mas não tentei fingir ser outra coisa, cada um sempre age e reage de maneiras distintas.. Para alguns talvez seja útil e necessário um tempo no armário...

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    1. Rodrigo, vc tem razao, um tempo no armario pode ser util e ate saudavel, para muita gente!

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  10. Eu já me vi, e ainda me vejo como seu amigo (armario fechado), ou seja, o lance nã é aberto para todos, mas jamais agi de forma preconceituosa como este seu amigo.
    Mas, o mundo dá voltas.
    Curti seu modo de agir de forma madura ao lidar com este fato. Parabéns, pois vc foi super compreensivo.
    Como sou vingativo, eu em seu lugar agiria de forma ironica e dava um jeito de dar o troco nele, afinal ele lhe causou varios transtornos psicologicos, além de repetir de ano.
    Quem sabe um dia vocês voltam a ser.bons amigos rs.

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    1. amigos? vc tá brincando né RO? rsrsr

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  11. Também tenho meu armário bem fechado para muitas pessoas, confesso que ainda não amadureci nesse sentido, apenas amigos mais próximos sabem. Talvez, se um dia, chegar a morar com alguém, aí seria diferente e, muito provavelmente, teria que dar mais satisfações a minha família. Enquanto isso, não acho necessário. Ao mesmo tempo, nunca fiquei chamando ninguém de "viado" no colégio, apesar de terem amigos que já. E, sim, depois que terminei meu colégio, até cheguei a encontrar alguns colegas nas baladas gays de São Paulo. Mas, nada demais, no máximo um "sempre soube de você" mutualmente. Rs

    Abraço!

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    1. Em muitos aspectos não é preciso sair do armário, mas isto acaba sendo um exercício diário... que tal participar do desafio? rsrsr

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