23 de abril de 2017

aqui não tem homossexuais

Resultado de imagem para homossexuais nao existem
As noticias da Chechenia de perseguição aos homossexuais estão assustando a todos... é a primeira vez desde a Alemanha nazista que esse tipo de perseguição acontece de maneira institucional. É claro que vários religiosos e sus denominações nunca deixaram de perseguir.. sempre com o mesmo argumento,,, que não existimos, que somos aberrações... parece tão ilógico pensar assim, tão irracional , mas eu passei por uma experiência há algumas semanas que serve para ilustrar um pouco como mesmo pessoas bem intencionadas podem ter sua mente lavada por questões religiosas:

  Lá na USP, na porta da FFCLCH, tem um rastafári que tem uma barraquinha de sandubas veganos, e como ele faz o sanduba na hora eu acabo conversando com ele, pois tenho bastante curiosidade sobre outras culturas, outros pensamentos... e como nunca fui para a Jamaica, achei que era uma boa oportunidade de aprender sobre o rastafaranismo. Ele me contou que vive numa comunidade rasta lá pelos lados de cotia (eu nem sabia que existia isso em sp) e que vivem segundo as normas da lei de Jah. Me contou que os homens (do genero masculino) não cortam o cabelo porque ele tem uma conotação no sagrado, pois ele como homem é automaticamente um estudioso e um "homem santo" de alguma forma... engraçado como várias religiões tem esta conexão com cabelo sagrado.
Resultado de imagem para rastafariPara não ficar muito por fora dos papos eu fui ler um pouco mais sobre a cultura rastafari, e no que fui lendo fui vendo que a mulher tem um papel bem secundário... não podem assumir cargos religiosos nem políticos... pelo cultura rasta elas só podem ser "do lar" basicamente. 
Ai fui conversar com meu amigo sanduicheiro rasta... e questionei como uma cultura que surgiu na década de 20, do século XX, tinha uma visão tão restrita sobre a mulher... e a resposta foi - esta escrito assim. 
E foi então que perguntei como eram vistos os homossexuais na religião e a resposta dele foi - não existem rastafáris homossexuais (!!!) . Eu tentei argumentar, falei para ele que estatisticamente de 10 a 20 % da população é homossexual e que com certeza havia rastas gays. Ele disse que não conhecia nenhum e nunca tinha ouvido falar de nenhum rasta gay. Eu ainda brinquei.. me leva um dia num culto seu que eu ligo o meu radar e te mostro os que são...
Ai eu perguntei sobre o que a religião falava dos homossexuais em geral - pois ele convive com o pessoal da FFLCH e tem muito gay, lésbicas, trans,  de pessoas de gênero fluido circulando por ali - a resposta foi, eles não são rasta e não tem nenhuma explicação para eles.
Ou seja, somos inexistentes para eles, ou somos aberrações, pouco dignos por estarmos fora dos modelos do "masculino" que eles aceitam...

De certa forma este pequeno episódio ilustra bem o que acontece nas doutrinações, a negação da realidade de forma a adequá-la á necessidade de dominação, o papel secundário da mulher, a inexistência de sexualidades diferentes, não me parece uma simples coincidência que todas as religiões monoteístas sigam o mesmo roteiro... 
Os rastafaris são estimados em pouco mais de 20 milhoes de seguidores, e talvez por serem poucos esse pensamento deles não faça muito "estrago", mas os 2,5 bilhões de cristãos e  os 1,8 bilhões de islâmicos , que não pensam tão diferente assim com relação ás mulheres e aos homossexuais, tem feito muitos estragos...

Dá para ter esperança com isso? Eu acho que sim, acho que como outras coisas - como o fim da escravidão, imigrantes, casamentos inter-raciais - com o convívio as pessoas vão se acostumando, vão aceitando, ou vão se resignando, seja qual for o modelo de mudança as coisas mudam, o problema é que demoram muito a mudar.

E você, conhece gente que nega a existência de homossexuais? Qual seria o caminho para mudarmos um pouco a cabeça dessas pessoas? Ou será realmente que não existimos?


9 de abril de 2017

machismo, homossexualidade e fidelidade

Nenhum texto alternativo automático disponível.Esta semana eu participei de uma reunião do Grupo HOMOPATER que discutia principalmente a questão da Fidelidade, e de como isso se relaciona com a questão da masculinidade e dos relacionamentos homoafetivos.
Foi uma conversa muito interessante, e a conclusão final (segundo eu entendi) foi de que a fidelidade é muito mais relacionada a um "combinado" que se faz com a pessoa, pois podem existir tipos e conceitos diferentes de fidelidade (e infidelidade). Falou-se também que a fidelidade pode ter um forte componente nas tradições, em especial religiosas e que de certa forma a fidelidade não seria "natural".
Aqueles papos de que o amor romantico foi inventado no século XIX, que o casamento é uma instituição religiosa cristã e que os gays não precisam seguir isso, que numa relação entre dois homens é muito diferente que duas mulheres... tantos argumentos!

Todos tinham histórias para contar sobre o fato das pessoas serem naturalmente infiéis: "acho impossível passar a vida toda sem querer transar com ninguém mais", " as minhas amigas todas traem seus maridos", "não tem como ser fiel",  "meu amigo só descobriu que o marido o traia quando ele morreu de HIV". Ai se falou muito mais em Traição, do que de infidelidade.
Em função disso a fala de alguns presentes que vivenciam, ou vivenciaram, relacionamentos abertos, em que de uma forma ou de outra - dentro de alguns "combinados" - se podia transar ( mas não se relacionar) com outras pessoas, também teve seu peso durante a reunião mas o que eu pude perceber é que não havia fidelidade sexual, mas havia fidelidade emocional.

Sempre que surgem essas conversas sobre relacionamentos abertos - que todos afirmam serem super fáceis de administrar e muito mais naturais devido ao grande apego que os homens gays tem ao sexo - parece que quem acha que tem um bom relacionamento monogâmico está "mentindo" ou "aprisionado nas convenções pequeno burguesas", e normalmente recebe-se um certo olhar do tipo "você deve estar mentindo, com certeza vc pula a cerca".
Num determinado momento da reunião eu pedi a palavra para questionar um dos homens que vive um relacionamento aberto com seu companheiro há mais de 15 anos: " Quer dizer que se eu falar para o meu companheiro - vou fazer café para assistirmos o Masterchef juntos - e ele me responder que vai sair para transar - só transar como foi combinado - com alguém, porque acha Masterchef chato, eu tenho que achar normal e bom para o relacionamento aberto que combinei com ele?"
Sério? Sério que nem posso ficar chateado? Desculpe.

E ainda completei - "Onde vcs acham caras para transar sem compromisso? Vcs mantem o GRINDER nos seus telefones? ou vocês ficam caçando o tempo todo? Vão a saunas e boataes com essa intenção?" - o que deixou o cara meio chocado com minha caretice...
Ele me disse que encontra gente em qualquer lugar... que não é difícil ... o que me fez sentir que eu sou muito ruim de cantada porque quando eu estava solteiro eu não achava gente para sair sem procurar, ás vezes procurar bastante. Acho então que gente ruim de cantada não pode ter relacionamento aberto! kkkk
Para mim, para você encontrar alguém, nem que seja só para transar, denota um certo esforço, ficar ligado, estar disponível para isso... caçar mesmo... mas se vc se esforça para procurar outros caras, porque não se esforçar para ficar com o seu? Especialmente porque há o tal combinado de "fidelidade emocional"?  E é um esquema todo cheio de regras, o cara pode vir transar na sua casa, mas não pode ficar para jantar, nem dormir... é só sexo e tal ( se tem tanta regrinha, para que não atrapalhe o relacionamento, porque não seguir as regrinhas da monogamia?)... tudo para não se envolver emocionalmente
Até em deles, que vive uma relação aberta, relatou que num determinado momento, acabou se envolvendo com uma pessoa emocionalmente, e que isso quase acabou com seu casamento - ou outra trabalheira emocional...

Resultado de imagem para cadeadoMas não era só eu que tinha feito a opção por um relacionamento monogâmico, outros disseram que não tem intenção de abrir seus relacionamentos e que preferem ter uma pessoa só. O que me deixou me sentindo bem "normal". Acho que a conclusão final é que cada um tem que escolher o modelo de relacionamento que lhe cabe melhor, o que lhe deixa feliz, e o que faz o relacionamento fluir, crescer, desenvolver.

Pessoalmente eu não tenho nada contra as pessoas que escolhem que no seu relacionamento se pode transar com outras pessoas, ou a três, também acho aceitável relacionamentos poligâmicos (3 ou mais pessoas numa relação amorosa) , porque, da mesma forma que as piadas sobre casamento gay, os relacionamentos poligâmicos não são obrigatórios, vc não é obrigado a viver um! Então deixe quem quer viver em paz!
Eu não acho a monogamia um sacrifício, nem uma convenção obrigatória pela sociedade, nem uma prisão. Não acho que sou menos homem ( como parece para alguns ) porque eu transo sempre com a mesma pessoa, porque eu não fico espalhando minha "semente viril" em outras paragens. Eu gosto de transar com quem estou me relacionando, e acho super normal administrar as diferenças de tesão, o que pode ser bem resolvido com um filminho, ou com o clássico 5x1... fidelidade não é um sacrifício.

Eu ate conseguiria administrar se o Mr. Jay, num momento qualquer, pulasse a cerca, se bem que eu prefiro nem ficar sabendo se não for nada sério, lavou está limpo! Na realidade eu até consigo me imaginar transando com uma outra pessoa num momento de fraqueza, sei lá - do mesmo jeito que meu ex fazia - sem me envolver emocionalmente... mas eu não tenho vontade disso! Acho que ambas as situações nos levariam a conversar sobre o relacionamento, ver porque estamos juntos e se ainda queremos ficar juntos - como outras situações do dia a dia podem ser motivos para pensar o relacionamento.
O relacionamento não pode ser uma coisa morta, paralisada, ele é dinâmico, em construção permanente, vamos mudando e temos que ir mudando o relacionamento. O tempo passa e as coisas não precisam ser piores por serem antigas, eles podem ser melhoradas, recicladas, se existe o amor, o compromisso o companheirismo, o carinho e planos em comum.

E para você? O que é fidelidade num relacionamento entre dois homens? Como você lida com a traição?





3 de abril de 2017

1, 2, 3... precisamos contar?

Esta semana correu a notícia que o Pato Donald vai proibir as perguntas sobre os LGBTs no próximo censo americano, a se realizar em 2020 (clique aqui para ler Washington Post) . É claro que como outras muitas coisas que ele tentou fazer e teve que voltar atrás, pode ser que isso também não se concretize, mas a notícia por si só já é motivo para refletirmos! E nos preocuparmos se algo parecido ocorrer no Brasil.

No Brasil, como nos EUA, os LGBTs só começaram a ser "contados" no censo de 2010(1), antes disso as pessoas, as famílias e os domicílios LGBT não eram contados simplesmente porque não eram feitas as perguntas certas. Em 2010 o entrevistador passou a perguntar se a pessoa vivia com alguém, se a resposta fosse afirmativa ela questionava se era uma pessoa do mesmo sexo e depois o grau de escolaridade e renda dessa pessoa.
No censo então identificou-se 60.000 domicílios LGBT no Brasil em 2010 (um deles o meu pois declarei isso ao recenseador). Nos EUA foram identificados 400 mil domicílios LGBT, de um total de 54 milhões de domicílios heterossexuais, mas eles consideraram que havia uma curva de "não identificação" dos domicílios heterossexuais, (2) e que esse número poderia chegar a 650 mil lares LGBT. Com certeza o mesmo critério poderia ser aplicado ao Brasil, posto que em 2010 o casamento de pessoas do mesmo sexo tb não estava oficializado aqui.

Mas para que contar? Não queremos nos integrar? 

Eu entendo que é importante discriminar(3) para que se possa reivindicar diretos, leis e políticas públicas em função das perdulariedades de cada grupo. É importante contar os Indígenas para poder saber sua importância na sociedade e proteger sua cultura, é importante contar os negros, as mulheres, os trabalhadores das empresa terceirizadas e outras coisas, para poder proteger as pessoas, especialmente as que não são maiorias. 
Nunca deixaremos de ser minoria, mas não podemos deixar parecer que não existimos! É com esses argumentos - ou essa visão distorcida propositalmente - que volta de meia aparece gente querendo legislar "o cú alheio"  como recentemente quando o MP do Paraná queria impedir gays de adotarem crianças pequenas, sugerindo que só poderiam adotar crianças acima de 12 anos (lei AQUI no Blog do Projeto ACOLHER)
Foi  por isso que, em 2010, tanto no Brasil como nos EUA, as entidades LGBT fizeram campanha para mostrar para as pessoas sobre a importância de nos declararmos LGBT ao censo. 

Tenho certeza que os números dos casamentos LGBT vão dar um salto no censo de 2020, mesmo porque eles vão partir de ZERO, já que o casamento oficializado só pode existir a partir de 2013. O que deu muito mais força e direitos ás pessoas, e tornou muito mais visíveis essas famílias.
Eu tenho feito a minha parte, tenho dado cada vez mais visibilidade a minha família, em vários momentos de minha vida, no meu dia a dia, não só por orgulho dela, mas também como atitude social e política, como eu sei que muitos amigos fazem... mesmo sem terem que usar e  "roupa camuflada" né não Zé Soares?

E você, como se declarou no último censo? Como vai se declarar no próximo? Acha importante contar?



(1) Na realidade o PNAD (pesquisa nacional por amostragem de domicílios) já contava os domicílios LGBT antes de 2010
(2 ) Pelo preconceito, por medo de discriminação,  porque o casamento não estava oficializado por lá e outros motivos, incluindo ai o preconceito do entrevistador. 
(3) No sentido de distinguir, perceber diferenças, discernir, e também de listar e classificar