29 de setembro de 2005

Meus Pais Gays (parte 2)

Segunda parte da reportagem que foi publicada originalmente na revista SUI GENERIS, se quiser a primeira parte clique aqui: http://paigay.blogspot.com/2005/09/meus-pais-gays-parte-1.html

MEUS PAIS GAYS (parte 2)

Os dois estavam ali na piscina do sítio, decidiram ser claros e diretos com Leonardo. “Lembro que eu falei exatamente assim. Você sabe que eu e o Augusto vivemos juntos e que neném só nasce da barriga de mulher. Então queremos que você seja nosso filho”. Leonardo na fez objeção alguma. “Não sei se todos os garotos iam querer ter dois pais homens. Eu já me acostumei. È bom, mas ás vezes pode ser pior. São dois pais para reclamar o tempo todo” explica Leonardo.
O casal comprou então um novo apartamento na Tijuca, com dois quartos, e tratou da legalização do filho. “Tínhamos que decidir quem iria adotar Leonardo” conta Luis Carlos. Ele ´técnico de edificações da Light e Augusto é gerente do Banco do Brasil. “Entre o plano de saúde da Light e o do Banco do Brasil a gente ficou com o do Banco!”.
Augusto então tem a guarda definitiva do menino. “Ninguém, nem os pais, pode tira-lo da gente” diz Luis Carlos.
Este é o primeiro passo para a adoção plena já em andamento, quando o menino receberá o nome de Augusto. Vai se chamar Leonardo José de Abreu de Andrade. “Só posso dizer que um filho é a experiência mais plena que se pode ter na vida. É raiva, encheção de saco, orgulho, aflição, muito amor e muita expectativa. Fico preocupado com o futuro. Quero que ele seja um homem de bem, que seja correto, que seja feliz”, revela Luis Carlos.
“E eu amadureci à porrada. Com filho não tem ora, veja. Em qualquer relação há troca. Com uma criança, muitas vezes, é só doação” diz Augusto.
A primeira porta na cara foi do Colégio Batista, na Tijuca. A direção alegou que filho adotivo de dois pais nem pensar. Não queriam problemas. Leonardo, no entanto, foi acolhido com todo carinho pelo Colégio Barbosa Figueiredo. Os pais forma cercados de muito s elogios pelo ato de adotar o menino. “Descobrimos aos poucos que a pressão que a gente sofreu era muito menor do que imaginávamos. Isso mostra que o preconceito maior está dentro de nós. Se você não se esconde, não se discrimina, fica tudo mais fácil” comenta Augusto.
É assim, com uma vida ás claras, que o casal conquistou o respeito dos vizinhos, dos amigos e dos pais dos amigos de Leonardo. Os dois dirigem o Grupo Arco-Iris de conscientização gay, recuperação de auto-estima e cidadania de gays e lésbicas. Nem que quisessem poderiam ter uma vida reservada. “ Eu apareço na TV e toda hora tenho que telefonar para a vizinhança atrás de Leonardo. Para saber se vão leva-lo á festa, que horas volta, estas coisas. Não poderia ser nada escondido. Todos nos conhecem e nos respeitam”.
Os amigos de Leonardo não o tratam diferente por causa dos dois pais. “ Se alguém tem alguma crítica não ia falar nada comigo. Ao contrário, quando sabem me dão força. Só no colégio, quando os garotos ofender, dizem coisas do tipo “ teu pai é gay”. Como xingariam a mãe. Não ofendem, mas isso enche o saco. Dá vontade de dar um soco na cara diz.
O outro lado desta moeda é o carinho derretido das garotas. Assim, com esta história interessante, um jeitinho meigo e sem preconceitos, humanista ao máximo. Leonardo é um docinho para as meninas. “ As mulheres me entendem muito mais” diz ele, sorrindo.
As questões de sexualidade nesta família são motivo de diversão. Leonardo não é gay. “ Sempre senti atração por garotas”, declara. As quais os dois pais consideram sempre sem graça, por mais que sejam atraentes. “ Leonardo vem me mostrar uma mulher gostosa e eu digo não dá, serve apenas para uns bons bifes”, comenta Luis Carlos.
O menino também costuma crivar os pais de perguntas sobre suas preferências sexuais. “ Ele me pergunta muito sobre isso. Se já tive mulheres, namoradas. Eu digo que sim, mas que não sentia a mesma atração que sinto por homens”.
Leonardo só não gosta de gracinhas quando o objeto sexual em questão é um de seus amigos. “ Ele tem um amigo que era um garotinho e, agora, está um homem lindérrimo, gostosérrimo. Eu brinco: Leonardo, este seu amigo...ele diz: para pai. Mas reclama Qual é o problema? Se fosse uma amiga minha gostosa ele não poderia comentar nada? “ questiona Luis Carlos.
Os dois pais confessam uma vaga fantasia que se Leonardo fosse gay talvez tivessem uma convivência mais próxima. Sairiam mais juntos, teriam mais afinidade. “ É só fantasia. Como se gay não gostasse de futebol”. Observa Augusto.
O fanatismo por futebol e o flamenguismo de Leonardo são um fardo para os pais.”Eu já avisei, Maracanã comigo, jamais” diz Luis Carlos.” Ele grita como um louco quando assiste um jogo pela TV”, diz Augusto.
“Fico com a idéia que se ele fosse gay poderia freqüentar as reuniões do Arco Íris com a gente. Iríamos ser mais unidos. Infelizmente fico feliz por ele ser hetero, porque assim não sofrerá tanta opressão. Mas ás vezes chego ao trabalho atarantado com o Leonardo. Reclamo assim com meus colegas: Meu Deus, onde foi que eu errei, tenho um filho hetero! Um bofe! “ brinca Luis Carlos.
As divergências nas famílias são idênticas ás dos filhos de pai e mãe. É a toalha molhada em cima da cama, o pé preto de sujeira no sofá, a luta para que volte cedo para casa, o roubo de cuecas e de camisas.
A privacidade de um casal que não esconde suas manifestações de carinho, como beijos e abraços, é sempre respeitada. “A gente se beija muito, Não dá para viver como no quartel. Chegar em casa, apertar a mão de Luis Carlos e dizer boa noite” conta Augusto.
“Leonardo saca isto muito bem, Me lembro que ele tinha só uns dez anos e a gente estava na piscina do sitio. De repente , a gente começou a se beijar e pintou um clima. Pensei: e agora? Tinha aquele empata ali na nossa frente. Mas Leonardo levantou e disse: Vou dar uma volta para vocês resolverem o babado de vocês. Não se sente rejeitado. Saca tudo. É intuitivo e muito carinhoso. Gosta de ficar abraçado com a gente. É quentinho e gostosinho. Só não tem limite nas gavetas do meu armário. Pega tudo sem cerimônia “ conta Luis Carlos.
A única preocupação da família em matéria sexual é a AIDS. Os pais querem que Leonardo use sempre camisinha


3 comentários:

  1. Anônimo1:05 PM

    Adorei esse depoimento nos mostra que é possivel viver uma vida em familia com a de qualquer outra familia, faz com que nós tenhamos coragem para nos posicionar diante dessasquestões

    amei nando 29sp

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  2. adorei a história que por si só é emocionante, mesmo sem o conteúdo "diferente", ou seja, os dois pais. admiro quem tem a coragem e o desprendimento de adotar, seja hetero ou gay. e amor, é bom que se lembre, é sempre o melhor antídoto contra quaisquer preconceitos. um abraço, cristiane

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  3. muito legal essa reportagem...não tenho pais gays mas futuramente pretendo formar uma familia e meus filhos terão de conviver com as diferenças...
    um grande abraço

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