16 de outubro de 2014

"ninguém quer contratar as femininas!"

Há alguns anos atrás eu precisei contratar um funcionário para cuidar do escritório. Era uma vaga para um auxiliar de serviços gerais que cuidasse do dia a dia da limpeza, da manutenção e do jardim. Então eu divulguei esta vaga entre os amigos dizendo que eu queria dar oportunidade de algum LGBT assumir esta vaga. Disse que não havia problema ser alguém sem experiência e nem alguém que fosse efeminado ou até mesmo trans.
Eramos uma empresa que estava iniciando, este seria o segundo funcionário da empresa - a primeira era a secretária contratada dois anos antes. E contratar uma pessoa abertamente gay fazia parte da minha "militância de formiguinha" (o blog tb é parte disto).
 
Mas havia mais razões, e uma delas é que  eu sei que os gays efeminados sofrem mais preconceito! 
 
Primeiro: para as pessoas que são mais "bandeirosas" o preconceito na escola muita vezes as afasta dos bancos escolares... se for uma garoto ou garota trans fica mais dificil ainda. Sem escola, sem estudo, sem educação formal... começa o ciclo de exclusão do mercado de trabalho.
Sem estudo sobram os cargos menos qualificados - onde o preconceito é maior ainda (todas as pesquisas dizem que pessoas com menos instrução tendem a ser mais preconceituosas não é?). Ou seja, nem para estes cargos menos qualificados são contratados, porque os contratantes não querem este tipo de problema na empresa, nas equipes.
Hoje em dia penso que as coisas estão um pouco melhores, existem áreas que dão muitas oportunidades para homossexuais, As empresas de telemarketing por exemplo, são o primeiros emprego de muitos jovens gays, mas ainda com salários baixos, com poucas chances de crescimento porque as pessoas continuam não muito dispostas a darem oportunidades para as "pintosas".
Me parece que para as mulheres que são mais "masculinas" este problema é um pouco menor, ao que parece as "bichinhas" incomodam mais, mas com certeza outras pessoas perdem oportunidades de emprego por conta do jeito que são. Aliás, eu até já vi mulheres lindas dizerem que sofrem preconceito justamente por serem bonitas - principalmente as pessoas achando que elas não podem ser inteligentes e que só tem bons cargos em função da beleza...
 
Divulguei a vaga e ai apareceu o R! Indicado por uma amiga lésbica. Ele tinha 36 anos e nunca tinha trabalhado com carteira assinada. Tinha feito até a metade do ensino médio porque os pais nunca estimularam ele a enfrentar o preconceito na escola e ele acabou desistindo. O pai dele abandonou a familia e a mãe ficou doente, ele passou anos cuidando da mãe até ela morrer. Quando a mãe morreu ele foi cuidar de uma tia velhinha durante quase 10 anos, e ela tinha morrido no começo do ano. Naquele momento ele morava "de favor"   na casa de um conhecido que o acolheu, dormia no terraço envidraçado, cujas janelas tinham sido fechadas com jornal para conter a claridade. Ele não era um rapaz bonito, usava cabelos longos.. e para ilustrar o quanto ele estava ligado em seu lado feminino, eu vou te contar que a primeira coisa que ele comprou com seu primeiro salário que recebeu conosco foi... um vestido verde de paetês que fez questão de mostrar para a gente as fotos...Além disto o R tinha uma grave perda auditiva, em função de uma doença de infância.
 
Me diz quem contrataria o R? Sem qualificação, sem referências e bichinha de voz de "taquara rachada"?
Não quero aplausos nem parabéns por isto, como disse nao era nenhum cargo maravilhoso, era um salario um pouco maior que um salário minimo. Tenho certeza que vários de vocês fazem coisas parecidas, só estou contando a estória para ilustrar a questão do preconceito, para conversar.
Ele era muito prestativo, preocupado em acertar, em aprender, muito carinhoso e amável com todos ele era membro da equipe...apesar de que do ponto de vista de manutenção ele era uma negação - a "bicha" tinha mêdo de furadeira! rsrsr. 
 
Ele ficou conosco quase dois anos, foi quando mudamos da casa que utilizávamos para um conjunto num predio comercial, e precisamos mandar ele embora pois, sem jardim e sem área externa não justificava mais sua função. Mas o  melhor foi o que aconteceu depois...
Como ele tinha este problema auditivo orientei ele a buscar um emprego dentro da política de cotas - afinal de contas ele já não tinha mais "carteira em branco" e tinha uma bela carta de referencias nossa. Ele conseguiu emprego para trabahar num grande escritório de advocacia - conseguido por uma cliente nossa,  pois contamos para todos que estavamos procurando trabalho para ele -  começou trabalhando no arquivo, depois foi promovido a "separador de processos", depois foi promovido a "acompanhador de advogados nas audiências".... e o que mais o divertia era ter que vestir "terno" para ir ao forum... ele dizia que se vestia de "hominho"!
Ou seja, é um cara competente e está galgando seu futuro.. hoje mora em seu apartamento e da ultima vez que falei com ele, soube que tinha "acolhido" em sua casa uma pessoa transgenero que estava com dificuldades...O nome deste jogo é oportunidade! Ou seria CORRENTE DO BEM?
 
Talvez vc tenha achado meu texto preconceituoso, por usar  termos como "efeminados", "pintosas", "masculinizadas", achando tudo isto uma bobagem relacionada ao gênero... Mas eu realmente não achei um outro jeito de abordar o assunto...
 
Só para pontuar e ilustrar...o nosso querido R, com dinheiro da rescisão na nossa empresa, comprou um lindo vestido... de noiva... o que não deixa de ser muito divertido nao é?
 
 
E você? Já sofreu preconceito por dar "pinta" no trabalho? Como resolver isto?




13 comentários:

  1. Uma estória de oportunidade e superação. Pena quem nem todos tenham a mesma oportunidade que ele, e continuam marginalizados.
    Abraço

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    1. Se cada gay que tem condição de contratar um colega LGBT o fizesse de forma aberta as coisas iam começar a mudar! Obrgado pelo coment Elian!

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  2. Bom, eu acho que cada um é como é. A homossexualidade é apenas uma orientação sexual. Não tem absolutamente nada a ver com identidade de género, logo, um homem que gosta de outros homens ou uma mulher que gosta de outras mulheres continua, sendo homossexual, a se identificar com o seu sexo biológico. Claro que muitos homossexuais masculinos são mais femininos e também se sentem homens. Não vejo nada de errado neles. As nossas sociedades assentam numa desvalorização do feminino, daí o preconceito de género que ainda existe, de mulheres que auferem menos do que os homens por trabalho igual, embora todas as leis que as protejem da discriminação.

    É muito triste que esses rapazes sejam quase obrigados a sair da escola pelo preconceito. Triste e repugnante.

    um abraço.

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    1. Vc tem razão Mark em falar da "desvalorizaçao do feminino" este é um preconceito ainda muito presente na sociedade...outro dia mesmo assisti uma palestra com uma intelectual fantástica e me peguei pensando .. "nossa além de tudo ainda é bonita"! horrivel não é?

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  3. Lembro que tive de interpretar um papel em uma ópera francesa que que era extremamente afetado....( em uma ópera francesa isso chega ser redundância..rs ) Lembro do diretor de cena olhando torto para mim todos os ensaios de palco! Acabei me dirigindo a ele para perguntar o que fazia a cara dele se contorcer cada vez que eu entrava em cena....
    O diretor respondeu de cara amarrada: você está muito másculino.....nem parece que é viado!!!!
    Coisas loucas que somente o palco pode oferecer: preconceito as avessas!!!
    Bjs

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    1. HAHAHAHA! No RuPauls Drag Race de vez em quando tb acusam as participantes de serem... pouco femininas! beijos!

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  4. Ai ai, cada entrevista que eu passei na minha vida, como professor, eu via o preconceito na cada das pessoas, pouco importava minha formação, meu mestrado, meu doutorado, eles não queriam um professor gay. Isto era claro em inúmeras escolas, e eu nem sou essa bichinha toda, mas também não sou o cara mais másculo do mundo. O preconceito está ai todo dia, eu enfrento ele todo dia, não entendo é como as pessoas não enxergam.

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    1. Vc tem razão FOXX! todo dia toda hora! uma Me_ _ _!

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  5. Essa sua história foi muito válida.
    Uma coisa boa dela, é que achei que teria um final triste, mas não foi o que houve e isso é incrível. Como você disse é uma corrente do bem, e essa sim vale a pena não quebrar nunca.

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    1. Sam, pelo que lejo do que vc escreve... vc tb tem mantido a corrente do bem encadeada! abs!

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  6. Eu acho que se cada pessoa fizesse o "seu pouquinho", as coisas mudariam verdadeiramente, e bem rápido. Uma vez, logo no início da minha carreira eu passei por uma situação parecida.

    No grupo de estagiários que trabalhavam na divisão, havia um que chamava a atenção, mas até ai tudo bem. Sempre vi todos eles saindo juntos, coisa e tal. Mas esse "estag", um dia esqueceu de apagar um arquivo no scanner onde ele aparecia abraçado a um outro garoto. Imediatamente, os demais estags começaram a isolá-lo, não o chamavam mais para sair e de certa forma até boicotavam o trabalho dele.

    Ele é um cara fantástico, muito competente, já era naquela época! Percebendo aquilo, fiz questão que ele participasse dos meus projetos, já que trabalhávamos na mesma equipe na época. Recebi olhares meio desconfiados dos outros estagiários, mas comprei "a briga"... E assim, acabei ganhando um grande amigo até hoje, isso já tem bons anos.

    Esse estag mais tarde virou funcionário da empresa, coordenou aquele setor que ele era estagiário (e que era nosso apoio) e hoje é Gerente de Projetos em uma grande empresa ai em SP. Sempre acreditei que ele iria longe e foi muito duro ver o que fizeram, mesmo que de maneira inconsciente, com ele.

    De certa forma teu post me lembrou esse causo! Que história bacana, tomara que possamos ter mais gente ajudando...

    Grande abraço e perdão pelo comentário longo.

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    1. Que legal TIMMAN! eu ouvi varias historias como a sua logo deposi deste post! como eu mesmo disse, eu sei que muita gente faz coisas parecidas! parabens!

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  7. Pois eu acredito que a gente tem que fazer isso mesmo: já que nos discriminam nas vagas de emprego, temos que dar prioridades de vagas (ou indicação) para a população LGBT. É uma forma de mudar as coisas, né?

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